02 fevereiro 2009

Palavras certas

Saiu da sala de aulas e dirigiu-se ao bar. Estava contente e a vida corria-lhe bem. Com a capa amarela debaixo do braço e a sua carteira cinzenta preferida no outro braço, Miranda acelerou o passo, passando ao lado de imensas caras ainda desconhecidas. Procurou-o no meio da multidão. Era um hábito. Não costumava ir ter com ele e era raro falarem lá. Hoje decidiu que era o dia. Acordou cheia de coragem e decidiu que era o dia. Miranda ia ter com ele. A esta hora era costume ele estar sentado numa mesa, à frente do bar, com os amigos a tomar o café da manhã. Avistou a mesa e procurou-o. Viu os amigos mas ele não estava ali. Procurou, com o olhar, nas outras mesas e na fila do bar. Nada. Virou as costas e começou a andar, imaginando onde ele poderia estar. Passou por detrás das escadas e viu-o, junto à entrada. Fez um sorriso rasgado e os olhos até brilharam. Baixou o olhar e reparou. Reparou que estava de mãos dadas a uma rapariga que nunca tinha visto. Miranda encostou-se às escadas de modo a não ser vista por ela. Muito menos por ele. Vê-os a falar. Ele passa a mão pelo cabelo loiro dela. Ela pousa a mão no peito dele. Ela aproxima-se dele e, de bicos de pé, dá-lhe um beijo. Miranda desvia o olhar, sentindo as lágrimas a chegarem aos olhos.
Não quer chorar mas não aguenta. Leva a mão à boca, tentando abafar o som do choro. Depressa vai à carteira, à procura das chaves do carro e quando as encontra, pega na sua capa e corre para a saída, sem olhar para eles. Empurra a porta, com força, e sai da faculdade. Miranda pára de correr a meio caminho. Levanta a cabeça para cima, de olhos fechados, sentindo a água da chuva a cair. Quando a sente, aparece que pode respirar novamente.
Passados breves momentos, sente os braços de alguém a envolvê-la, atrás dela. Ele aperta-a com força. Miranda consegue sentir o corpo dele junto ao seu. Consegue sentir o batimento cardíaco dele. Estava acelerado mas não tanto com o dela. Ela pousa as suas mãos por cima das dele, apertando-as com força.
"Eu também gosto de ti.", ouve-o dizer, ao seu ouvido.
Ela desprende-se dele, limpa a cara com a mão direita e vira-se. Olha-o nos olhos.
- Mas... - Tenta dizer, não conseguindo. Desvia o olhar para o chão.
Ele afasta o cabelo molhado dela da frente da cara e levanta-lhe o queixo.
- Elisa. Chama-se Elisa. Começámos a andar ontem à noite. Bem, acho que posso dizer que é minha namorada. - Silêncio. - Mas.. Eu adoro que vás à minha procura... Adoro olhar para ti e ver-te a sorrir timidamente, desviando o olhar para o chão, e depois viras costas de uma maneira tão... Apressada, provando que te sentes intimidada. O que tu sentes, eu também sinto. - Silêncio. - Desde o início. Há dias em que só consigo pensar em ti. Mas tu fechaste-te tanto. Não disseste nada, pensei que não gostasses de mim... da mesma maneira.
- Surpreendeste-me agora. Não imaginei que sentisses isso. - Silêncio. - Um dia alguém me disse que "perdemos tanto por não dizermos as palavras certas nos momentos certos." e eu acabei de prová-lo.

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