« A ideia de um Deus pessoal é um bocado ingénua, infantil até. Porque se trata de um conceito antropomórfico, uma fantasia criado pelo Homem para tentar influenciar o seu destino e buscar consolo nas horas difíceis. Criámos a ilusão de que, se rezarmos muito, conseguiremos que Ele controle a natureza e satisfaça os nossos desejos, assim por artes mágicas. Quando as coisas correm mal, e como não compreendemos que um Deus tão benevolente o tenha permitido, dizemos que isso deve obedecer a um qualquer desígnio misterioso e ficamos assim mais confortados. Nós somos uma de entre milhões de espécies que ocupam o terceiro planeta de uma estrela periférica de uma galáxia mediana com milhares de milhões de estrelas, e essa galáxia é, ela própria, um de entre milhares de milhões de galáxias que existem no universo. Como quer que eu acredite num Deus que se dá ao trabalhado de, nesta imensidão de proporções inimagináveis, se preocupar com cada um de nós?
Ele é bom e omnipotente, é? Ora aí está uma ideia absurda! Se Ele é de facto bom e omnipotente, como pretende a Bíblia, por que razão permite a existência do mal? Por que razão deixou que ocorresse o Holocausto? Se for a ver bem, os dois conceitos são contraditórios. Se Deus é bom, não pode ser omnipotente, uma vez que não consegue acabar com o mal. Se Ele é omnipotente, não pode ser bom, uma vez que permite a existência do mal. Se ler a Bíblia, irá reparar que ela não transmite a imagem de um Deus benévolo, mas antes de um Deus ciumento, um Deus que exige fidelidade cega, um Deus que causa temor, um Deus que pune e sacrifica, um Deus capaz de dizer a Abraão para matar o filho só para ter a certeza que o patriarca Lhe era fiel. Pois se Ele é omnisciente, não sabia já que Abraão Lhe era fiel? Para quê, sendo Ele bom, esse teste tão cruel?
Deus é o criador do universo? Então, por que razão pune Ele as suas criaturas se tudo é Sua criação? Não estará a puni-las por coisas de que é Ele, afinal de contas, o exclusivo responsável? Ao julgar as suas criaturas, não estará Ele a julgar-se a si próprio? »
(Excerto do livro «A fórmula de Deus»)
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